Entrevista COM ROSANGELA BERMAN:
“Deficiência não é sinônimo de inatividade sexual”
Durante os dias 22 e 23 de janeiro de 2010, foi celebrado em São Jose, Costa Rica, o Terceiro Forum Centro-americano sobre AIDS-HIV e Deficiência: Desenvolvimento de indicadores e sistemas de informação para o monitoramento e avaliação de programas nacionais de AIDS HIV.

Descrição da foto: Rosangela Berman mostra um cartaz dos que vem promovendo campanhas de prevenção a AIDS dirigidas a pessoas com deficiência. (Foto jornal La Nación / Carlos González)
O importante evento que reuniu especialistas na matéria, assim como pessoas com deficiência do país anfitrião e do resto dos países centro-americanos, foi precedido por atividades similares realizadas no El Salvador. Ainda assim, está programando para este mesmo ano de 2010 um quarto fórum, que será celebrado na Guatemala durante os dias 15 e 16 de abril e que se centrará na “Produção participativa de materiais sobre AIDS com enfoque de acessibilidade universal e diversidade funcional (especialmente para pessoas com deficiência auditiva, visual e intelectual)”.
Também para julho (15 e 16), será celebrado na Nicarágua o Quinto Forum Centro-americano sobre AIDS-HIV e Deficiência, cujo eixo temático será “as pessoas com deficiência como agentes comunitários de saúde”. Este ciclo de fóruns regionais se completará no Panamá, quando será realizado outro fórum centro-americano focado no desenvolvimento de programas e políticas públicas multi-setoriais que será celebrado durante os dias 7 e 8 de outubro do ano em curso.
Estas atividades são auspiciadas pelo Banco Mundial e a Secretaria de Integração Social da América Central (SISCA), do Sistema Integração Centro-américa (SICA) e tem como entidade especialista no tema de AIDS HIV e deficiência, o Instituto Interamericano sobre Deficiência e Desenvolvimento Inclusivo (IIDI).
Na atividade de São Jose, como nas precedentes, estiveram Rosangela Berman, Diretora Geral do IIDI e Sergio Meresman, também especialista do IIDI.
pelo interesse do tema e o importante processo que se desenvolve na América Central, RIADIS em ação reproduz uma entrevista com Rosangela, publicada no diário costarriquense “La Nación”, no último 23 de janeiro:
A ativista brasileira pelos direitos sexuais das pessoas com deficiência, Rosangela Berman, veio ao país (Costa Rica) para estabelecer convênios entre esse setor da população e as autoridades de saúde, com o objetivo de criar campanhas de informação sexual e atenção médica para essas pessoas.
A fundadora e diretora do Instituto Interamericano sobre Deficiência e Desenvolvimento Inclusivo (IIDI) conversou com La Nación acerca de seus projetos.
Qual a situação das pessoas com deficiência com relação aos direitos sexuais?
São muito desrespeitados. Não existem campanhas de prevenção de doenças de transmissão sexual dirigidas expressamente a quem tenha alguma deficiência. Infelizmente, ainda se pensa nas pessoas com deficiência não são um grupo de risco destas doenças porque não tem relações sexuais.
“A deficiência não é sinônimo de inatividade sexual. as pessoas com deficiência levam uma vida sexual tão ativa como os que não a tem, e seu risco é igual. no entanto, uma pessoa cega não tem como saber a data de vencimento de um preservativo porque não tem relevo e não está escrito em Braille, ou uma pessoa com surdez vai fazer um teste de AIDS e não tem pessoas que conheçam língua de sinais para ajudar-lhe”.
“Falta muitíssimo trabalho. são necessárias campanhas de informação e comunicação baseadas nas diferentes deficiências”.
Como é a incidência de doenças de transmissão sexual em pessoas com deficiência?
Infelizmente, isso não sabemos, apenas estamos começando com os registros em diferentes países. Existe muito subregistro de pessoas com deficiência que padecem de AIDS ou outra doença deste tipo, muitas delas nem sequer sabem que as tem. por outro lado, não há mecanismos de registro que identifiquem quais doentes tem uma deficiência e quais não.
Existe algum tipo de população com deficiência que tenha um maior risco de contrair uma doença sexualmente transmissível?
A população com deficiência é muito vulnerável a estas doenças, especialmente as que têm deficiência mental. Estas pessoas estão muito expostas a abusos e violência sexual.
“Muitos se aproveitam de pessoas com retardo mental, síndrome de Down ou algum tipo de desequilíbrio mental para abusar delas sexualmente. isto as converte em pessoas de alto risco”.
Qual é o papel desempenhado pelas autoridades mundiais de saúde neste tema?
Até agora estão começando a despertar e a trabalhar conosco no sentido de educar as pessoas com deficiência para a sexualidade. Também existe outra situação com as pessoas que tem AIDS. Muitas delas, devido a sua doença e aos medicamentos, desenvolvem deficiências que as vão levando pouco a pouco a uma cadeira de rodas ou a ter a vista mais frágil.
“Esta é outra razão pela qual devem reforçar os serviços de saúde e as atenções para a população com deficiência”.
Como atuam as autoridades de saúde costarriquenses sobre o tema?
Costa Rica tem uma posição privilegiadíssima em termos de saúde sexual. Aqui existe maior informação e a atenção médica é oportuna, mas ainda falta muito em matéria de deficiência.
“Deve-se começar por um sistema de monitoramento e avaliação de quantas das pessoas que tem doenças sexualmente transmissíveis tem algum tipo de deficiência”.
Quais são os projetos que você tem com a Costa Rica?
Vim reunir-me com outras pessoas com deficiência para escutar suas idéias e com funcionários do Ministério de Saúde para avaliar possibilidades de convênios para prover melhor informação às pessoas com deficiência.
“De momento, planejamos abrir uma unidade de saúde sexual reprodutiva para as mulheres com deficiência no Hospital da Mulher. Está é só uma idéia, mas temos um bom ambiente. Este tipo de iniciativa não deve estar nos centros de reabilitação, e sim nos hospitais nacionais, para que os médicos tomem maior consciência da necessidade de educar a população com deficiência sobre temas sexuais.
“Também desenvolvemos campanhas de educação sexual dirigidas a cada tipo de deficiência. Assim, os cegos, os surdos e as pessoas em cadeira de rodas sentirão que estamos falando com eles no seu próprio idioma”.

Descrição da foto: A fotografia mostra o exemplar de um cartaz c manchete: "A AIDS não discrimina", parte do material utilizado na América Central nas campanhas de prevenção destinadas a pessoas com deficiência.