FLAVIA ANAU, DIRIGENTE DE PIÑA PALMERA:

A RBC é uma estratégia fundamental para combater a discriminação e a pobreza associada à deficiência

Ignacio Márquez, redator de RIADIS em ação

Flávia Anau é uma ativa antropóloga social, brasileira de nascimento e naturalizada mexicana. Trabalhou em programas comunitários no Brasil e no México com mulheres em situação de violência, jovens dependentes de tóxico, ecoturismo rural e indígena e pessoas com deficiência.

Flavia Anau sempre faz ressoar sua voz na defesa dos direitos
Descrição da foto: Flavia Anau sempre faz ressoar sua voz na defesa dos direitos das pessoas com deficiência. (Foto Piña Palmera)

Esta mulher comprometida com seus povos coordena há 15 anos em Piña Palmera, a organização social e é integrante da equipe responsável pelo programa de Reabilitação Baseada na Comunidade (RBC), com pessoas com deficiência e suas famílias na costa do sul de Oaxaca, lugar onde trabalha com população mestiça e indígena.

sua organização, Piña Palmera, se converteu em organização membro da RIADIS na Terceira Conferencia da rede, celebrada na Cidade do Panamá, em maio - junho de 2007.

Nestes últimos meses, Flavia teve que multiplicar-se para trabalhar também na organização do Segundo Congresso Continental de RBC, que será celebrado em Oaxaca, durante os idas 3, 4 e 5 de março do ano em curso. O importante evento é organizado pela Organização Pan-americana de Saúde (OPS) e a Organização Mundial de Saúde (OMS), junto a Rede de RBC das Américas e Caribe.

RIADIS em ação a entrevistou para conhecer melhor sua visão e suas atividades e, particularmente, sobre o mencionado Congresso Continental.

- RIADIS em ação: Quais os objetivos propostos por Piña Palmera ao estimular o projeto inicial?

- Flavia Anau: Piña Palmera se construiu na prática, nasceu, cresceu e se ampliou com as pessoas da comunidade onde está imersa, partindo da necessidade que tinham as mulheres, em particular mães solteiras e famílias de pessoas com deficiência das localidades, que se encontravam completamente discriminadas e sem informação. Os objetivos iniciais se basearam na construção de um espaço coletivo que atendesse às necessidades dos que a formaram.

-RIADIS em ação: Quais são as principais conquistas de Piña Palmera?

-Flavia Anau: Manter-se como um projeto comunitário numa zona rural e indígena durante 26 anos consecutivos, contar com pessoal local com e sem deficiência, que desenvolvem diferentes ações de “empoderamento”.

Trabalhar diretamente em seis municípios de alta marginalização em matéria de deficiência com um foco social, comunitário e de direitos.

Participar em ações de políticas públicas a nível local com mudanças referentes ao tema de deficiência, gênero e infância na costa sul de Oaxaca.

Contar com um grupo de jovens com habilidade de liderança que trabalham em temas de combate a discriminação e promoção da justiça social em todos os âmbitos da cultura rural e indígena.

Ser membro de redes em prol dos direitos da mulher, dos indígenas, da infância e adolescência e das pessoas com deficiência, a nível nacional e internacional.

Pessoas com deficiência protagonistas na promoção da economia solidária, gênero e deficiência, interculturalidade, esporte inclusivo, meio ambiente e deficiência, grupos de auto-ajuda com famílias, educação inclusiva formal e informal, programas sociais e culturais.

-RIADIS em ação: A partir de sua vivencia intensa no tema: Qual é sua definição de RBC?

-Flavia Anau: É uma forma de viver e repensar a realidade desde um enfoque social e de direitos, buscando a construção de sociedades responsáveis, inclusivas, que por sua vez, transformem as relações desiguais em processos de justiça social, desde o individual, coletivo e social.

-RIADIS em ação: Por que Pina Palmera foi escolhida como eixo organizativo do Congresso Continental de RBC?

-Flavia Anau: Porque temos 26 anos de experiência no tema de trabalho comunitário com pessoas com deficiência, em zonas de extrema marginalização, em sua maioria indígena. Já contamos com uma proposta sistematizada para o trabalho ha muitos anos, com seus erros e acertos. Somos membros fundadores do grupo Deficiência e Comunidade do México, que reúne cinco organizações que trabalham a nível comunitário no país e dois ativistas no tema de direitos humanos e deficiência. Além do que, formamos parte da rede continental de RBC formada na Costa Rica em 2009.

-RIADIS em ação: Quais são as principais metas do Congresso Continental RBC?

-Flavia Anau: Reforçar o trabalho existente nos diferentes países em matéria de RBC, assim como, incluir a mais organizações da rede Continental de RBC, difundir os novos guias de RBC propostos pela OMS/OPS, vincular as instâncias governamentais desde suas responsabilidades na construção de políticas públicas em matéria de deficiência nos termos da Convenção sobre os direitos das pessoas com deficiência.

-RIADIS em ação: Quantas serão os e as participantes, seu perfil geral e seu país de procedência?

-Flavia Anau: Por parte da sociedade civil: líderes de comunidades, organizações sociais com e sem deficiência, familiares de pessoas com deficiência, promotores locais de países da America Latina, America Central e Caribe.

Por parte do governo: Representantes de entidades governamentais dos países acima mencionados.

No total serão 18 países envolvidos neste Congresso: Argentina, Belize, Brasil, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, El Salvador, Estados Unidos, Honduras, Jamais, México, Nicarágua, Panamá, Peru e Republica Dominicana.

Instâncias governamentais: DIF estatal, DIF Nacional, OPS/OMS, CONADIS, CONACULTA, UNICEF, CIESAS e CINAPRED.

Organizações da sociedade civil: Piña Palmera, Fundo Memorial Eduardo Vargas que reúne a seis organizações e CBM.

-RIADIS em ação: Qual o papel você dá à estratégia RBC na America Latina para melhorar as condições de vida das pessoas com deficiência?

-Flavia Anau: Penso que é uma estratégia fundamentas que pode unir aos diferentes países para reforçar temas de combate a pobreza e discriminação, desde o local, nacional e internacional, onde a deficiência é detonadora de processos organizativos comunitários para reconhecer os desafios e buscar de maneira coletiva as alternativas desde os contextos específicos de cada país.

-RIADIS em ação: A estratégia RBC tem sido dinâmica e vem evoluindo desde que foi nomeada pela primeira vez até hoje. Poderia resumir essa evolução?

-Flavia Anau: Felizmente, deixou de ser um tema de extensão de conhecimento e atenção dominados por médicos e especialistas nos anos setenta e oitenta para ser um tema de desenvolvimento, assumido pela comunidade, onde as pessoas com deficiência e suas famílias são os que dirigem os processos, se responsabilizando por seus direitos e exigindo às instancias governamentais a aplicação dos mesmos, tudo isso em um contexto de inclusão de pessoas com e sem deficiência.

-RIADIS em ação: Qual o próximo passo no avanço da estratégia RBC?

-Flavia Anau: A nível macro, fortalecer as redes continentais.

A nível micro, fortalecer os processos locais nacionais transversalizando o tema da deficiência nas diferentes temáticas vinculadas aos direitos de cada um dos setores que compõe nossa sociedade, garantindo que os governos cumpram desde os seus mandatos e papeis, as políticas publicas expressas nos programas com orçamentos onde os setores que se encontram marginalizados com e sem deficiência, possam acessar para melhorar sua qualidade de vida.

Piña Palmera promove a liderança das e dos jovens
Descrição da foto: Piña Palmera promove a liderança das e dos jovens com deficiência. Na foto se observa um grupo de jovens reunidos trocando idéias sobre temas de seu interesse. (Foto Piña Palmera)