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Terremoto “silencioso” viveram as pessoas surdas no Chile
Ignacio Márquez, redator de “RIADIS em ação”
Na madrugada do último sábado, 27 de fevereiro, o Chile foi sacudido por um terremoto devastador, que alcançou 8,8 graus na escala Richter, provocando centenas de mortos e feridos, e grande dano na infra-estrutura do país. Logo, nos dias sucessivos, sobreviveram fortes replicas que ampliaram os danos.
Um poderoso tsunami também impactou a costa chilena como seqüela do terremoto, destruindo várias localidades já devastadas pelo impacto da força telúrica inicial. A comunidade internacional, comovida com o ocorrido ao povo chileno, foi solidaria frente a grave tragédia e vem apoiando de maneiras distintas a esse povo irmão.
É seguro dizer que todos os que habitavam o Chile nesses dias infelizes, especialmente quem vivia nas áreas mais afetadas pelos sismos, padeceram a angústia e o temor pelo o que acontecia e o que poderia acontecer. Mas houve um setor da população que, alem da incerteza que pode ocasionar esses fenômenos naturais, foi afetada pela falta de informação. Trata-se das pessoas surdas do Chile. Para eles e elas o silencio informativo formou parte de sua tragédia cotidiana, nos dias imediatos ao terremoto destrutivo.
TV sem língua de sinais...
Em momentos tão difíceis, é muito importante receber informação que os oriente sobre que fazer, que permita conhecer os lugares mais afetados e para ter noticias sobre a situação de familiares e amigos. A rádio é um meio, pelo seu imediatismo, é muito útil em tais circunstancias, mas por razoes obvias, é inacessível para as pessoas surdas.
A opção alternativa para as pessoas surdas é a televisão, mas sempre e quando se garanta que haja interpretação de língua de sinais ou subtítulos. Tal condição não se deu nos dias posteriores ao terremoto no Chile. Isto provocou maior angustia e desgosto entre os surdos.
As autoridades televisivas responsáveis tomaram a desacertada decisão de prescindir de interpretação de língua de sinais chilena durante esses dias. Pode-se entender que depois de uma tragédia como a vivida no Chile, se abrem muitas frentes de atenção, mas uma prioridade é que toda a população esteja informada sobre o que está acontecendo. E toda a população inclui as pessoas surdas.
Contraste
O que aconteceu no Chile nos dias pós-terremoto contrastou com o ocorrido poucos dias antes, no ato encabeçado na Casa do Governo, quando a Presidenta da República Michelle Bachelet, anunciou a promulgação oficial da Lei sobre Deficiência. Nessa ocasião e como homenagem a grande quantidade de pessoas surdas que estiveram presentes no ato, ela aplaudiu, com grande entusiasmo, movendo suas mãos na forma habitual que as pessoas surdas aplaudem.
O contraste da situação se dá tanto pela promulgação da mencionada lei, assim como pela ratificação e entrada em vigor da Convenção sobre o direito das pessoas com deficiência no Chile. Vale sinalar que o Estado chileno ratificou este tratado e seu protocolo opcional no dia 29 de junho de 2008.
A Convenção previu situações como a suscitada no Chile. O artigo 11 trata precisamente sobre a situação de risco e emergências humanitárias. Ele indica o seguinte: “Em conformidade com suas obrigações decorrentes do direito internacional, inclusive do direito humanitário internacional e do direito internacional relativo aos direitos humanos, os Estados Partes deverão tomar todas as medidas necessárias para assegurar a proteção e a segurança das pessoas com deficiência que se encontrarem em situações de risco, inclusive situações de conflito armado, emergências humanitárias e ocorrência de desastres naturais.”
Apoio internacional
José Luis Brieva Padilla, representante da América Latina da Associação Mundial de Intérpretes de Linha de Sinais (WASLI, World Association of Sign Language Interpreters), respondeu ao chamado realizado por Alejandra Leon, intérprete de língua de sinais e lutadora pelos diretos da comunidade surda sobre o ocorrido no Chile.
Brieva respondeu a esse chamado: “queremos agradecer em nome da WASLI sua preocupação pela situação das pessoas surdas e intérpretes do Chile, desde WASLI te informamos que já no colocamos em contato com o presidente da Associação de Instrutores e Intérpretes de Língua de Sinais do Chile (ACHIELS), e durante a semana do 3 a 7 de março se enviaram 7 cartas assinadas pela presidenta Liz Scott Gibson e por mim, como representante latino-americano, com o objetivo de fazer pressão frente as entidade governamentais para que se permita por mais tempo que os intérpretes estivessem nos diferentes meios de comunicação informando à população surda sobre a situação de emergência”.
“Também na semana de 10 de março foram enviadas centenas de correios eletrônicos com uma mensagem clara de protesto e cobrança por mais de 40 funcionários do senado chileno exigindo o direito a informação...” para a população surda do Chile.