Seminário RIADIS-REDI em Buenos Aires:
Análise e linhas concretas para aplicar a Convenção da ONU na Argentina
- Grande participação e resultados no Seminário de Buenos Aires.
- Linhas específicas de ação em distintas áreas surgem do Seminário RIADIS-REDI.
- Serviços de apoio da organização do evento nas mãos de jovens com deficiência..
(Equipe de redação da “RIADIS em ação”)
A análise de temas específicos relacionados com a implementação da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência na Argentina e acordos concretos em linhas específicas de atuação marcaram a pauta do seminário realizado em Buenos Aires, nos dias 23 e 24 de abril deste ano.

Na foto, Carolina Buceta, Presidente da REDI, e Regina Atalla, Presidente da RIADIS, dão as boas vindas no ato inaugural do Seminário da Argentina.

Nesta foto, verificamos os atentos participantes do Seminário.
Esta atividade formativa e de ação política foi organizada, de maneira conjunta, pela Rede de Organizações Não Governamentais de Pessoas com Deficiência e suas Famílias (RIADIS) e pela Rede pelos Direitos das Pessoas com Deficiência na Argentina (REDI), a qual é organismo membro da RIADIS.
A REDI é composta por ONG´s e particulares envolvidos com todos os tipos de deficiência, e seu objetivo principal é fazer valer os direitos civis das pessoas com deficiência em todos os aspectos da vida social, política, econômica e cultural, garantindo sua inclusão e equiparação diante das oportunidades.
O Seminário de Buenos Aires foi celebrado na Universidade de Palermo, graças a um convênio de colaboração assinado pela REDI com este prestigiado centro de educação superior.
Para as atividades, compareceram setenta representantes de organizações de pessoas com deficiência, de ONG´s e instituções vinculadas com a matéria, tanto da capital argentina como de vários municípios do interior.
A coordenação da organização do seminário esteve sob os cuidados de Isabel Ferreira, por parte da REDI, e de Júlio Fretes, na qualidade de coordenador do Programa Regional de Seminários da RIADIS.
Objetivos do seminário
Igualmente como nos oito seminários anteriores sobre a Convenção – celebrados pela RIADIS na Guatemala, Equador, Chile, Paraguai, Colômbia, Perú, México e Cuba –, o seminário co-organizado com a REDI fixou os seguintes objetivos:
- Incrementar entre os participantes o conhecimento sobre a Convenção e seu Protocolo Facultativo, a fim de possibilitar sua aplicação efetiva;
- Promover a participação social das pessoas com deficiência e suas organizações na sua relação com organismos públicos, meios de comunicação e organizações sociais em geral; e
- Estabelecer linhas de ação futura para a efetiva implementação da Convenção na Argentina.
Com o objetivo de concretizar o máximo possível tal fim, os participantes trabalharam na elaboração e aprovação de uma “Declaração de Compromisso” para desenvolver ações de incidência concreta na República Argentina.
A atividade desenvolveu-se a partir de uma metodologia que incluiu painéis de informação e intercâmbio, oficinas de trabalho grupal e debates através de sessões plenárias.
Programa e exposições
Primeiro dia
O ato inaugural foi aberto com as palavras de boas vindas de Carolina Buceta, Presidente da REDI. Seguidamente, Regina Atalla, Presidente da RIADIS, saudou a todos em nome da rede. Em seu discurso, a dirigente da rede destacou o enorme desenvolvimento alcançado pela RIADIS no último período e a forte incidência política que se está desenvolvendo, tanto em cenários regionais como internacionais.
Neste sentido, destacou o esforço que tem representado e o enorme êxito alcançado no Programa Regional de Capacitação sobre a Convenção das Nações Unidas. Igualmente, ressaltou o fato de que, pelo fruto do trabalho e compromisso unitário da RIADIS, bem como sua prestigiada trajetória, a RIADIS tinha sido admitida, no final do mês de março deste 2009, como décima primeira organização membro da Aliança Internacional sobre Deficiência (IDA, sigla original em inglês).
Uma vez concluído o ato inaugural, foram dadas as correspondentes orientações metodológicas e se desenvolveram as exposições de painéis informativos. Luis Fernando Astorga Gatjens, Diretor Executivo do Instituto Interamericano sobre Desenvolvimento Inclusivo (IIDI) e condutor geral do seminário, fez uma exposição introdutória sobre o processo de negociações da convenções, a importância do tratado em relação à mudança de paradigma e a estrutura e conteúdos gerais do tratado.
Em seguida, Júlio Fretes (QEPD), Secretário Geral da RIADIS e coordenador geral do Programa Regional, apresentou uma análise geral sobre os direitos (civis, políticos, econômicos, sociais e culturais) incluídos na Convenção.
Uma vez concluídas as duas exposições gerais, desenvolveram-se os três painéis programados sobre temas específicos, relacionados com conteúdos priorizados pela REDI para a promoção da aplicação efetiva do tratado.
O painel 1 abordou o tema de acesso à justiça e foi desenvolvido pelos advogados Dr. Facundo Chávez Penillas e Dr. Marcelo Alegre. O painel 2, centrado no tema do emprego, foi desenvolvido pela advogada, Dra. Isabel Ferreira, e pela especialista médica, Dra. Ana Dones. Ambos os painéis foram muito bem acolhidos pelos participantes presentes, pela seriedade, clareza e profundidade com que os temas foram abordados pelos quatro painelistas.
Em seguida, foi apresentado o painel 3, com o tema capacidade jurídica, o qual foi muito rico no intercâmbio de informações, tendo sido desenvolvido sob a batuta do advogado Dr. Júlio Fretes, especialista na matéria, tanto por sua formação profissional, como pela proximidade com o tema em processo de negociação na convenção, contando também com a participação do Dr. Gustavo Moreno, Assessor Tutelar para questões de foro contencioso e administrativo.
O debate que se desenvolveu acerca deste tema pôs em relevo os matizes que emergem sobre o tema da capacidade jurídica das pessoas com deficiência. Enquanto o companheiro Fretes defendeu a tese de capacidade jurídica plena, a partir do modelo estabelecido no artigo 12 da Convenção, o especialista argentino, Moreno, mostrou-se inclinado a uma solução mais abrangente, que não supera completamente as figuras da interdição e tutela, atualmente vigentes nos Códigos Civis dos países da região. Este tipo de debate marca o início das discussões que deverão sobrevir a fim de harmonizar o que estabelece o tratado da ONU em relação aos conteúdos dos Códigos Civis de nossos países, no que se refere à capacidade jurídica das pessoas com deficiência.
Para encerrar a primeira jornada, Luis Fernando Astorga expôs sobre o tema “Participação das pessoas com deficiência e suas organizações no processo de implementação e monitoramento da Convenção”. O expositor introduziu seu discurso com a máxima: “Sem ação, não há direito”, que singularizou: “Com ação organizada e unitária das organizações de pessoas com deficiência e seus aliados, haverá aplicação efetiva e sustentada da convenção, através de políticas públicas transversais, que assegurem a melhoria da qualidade de vida das pessoas com deficiência, por meio do desenvolvimento inclusivo”.
“A unidade e a luta efetiva, através de ações de incidência política inteligentes, oportunas e propositivas, são o caminho que se há de percorrer para avançar na implementação e continuidade do tratado”, sublinhou Astorga.
Segundo dia
A jornada do segundo dia foi desenvolvida, primeiramente, com a constituição de cinco oficinas de trabalho. Os cinco temas tratados nas oficinas foram os seguintes: 1) Participação social, 2) Acesso à justiça, 3) Acessibilidade (física e comunicativa), 4) Capacidade jurídica, e 5) Emprego e Seguridade Social.
Os cinco grupos foram constituídos de modo a alcançar a melhor paridade de gênero possível e equilíbrio na distribuição dos participantes, com seus diferentes tipos de necessidades. Cada grupo trabalhou durante uma hora e meia.
Na sessão plenária, cada oficina expôs, através de seu(sua) relator(a), seu informe de conclusões. Os cinco grupos de trabalho produziram valiosos informes, que alimentaram a elaboração da “Declaração de Compromisso da Argentina”, documento cuja elaboração foi coordenada, conjuntamente, por Facundo Chávez (REDI) e Luis Fernando Astorga (RIADIS).
Curiosidades
Um fato relevante a ser destacado no Seminário RIADIS-REDI da Argentina foi a decisão da REDI de que tanto o apoio organizacional do seminário, como o serviço de buffet (coffee-break´s e almoços) estariam sob o comando de duas oficinas, formadas por pessoas com deficiência intelectual.
Estas duas atividades, que se desenvolveram eficientemente e com muito boa qualidade, foram executadas pelas organizações Fundação STEPS (assistência) e Associação ANDAR (serviço de alimentação), através de atentas e atentos jovens com déficit intelectual. “Somos, desta maneira, atuantes e efetivos em nossa idéia de inclusão”, ressaltou à “RIADIS em ação”, Ana Dones, dirigente da REDI e incentivadora destas oficinas produtivas.
Outro tema interessante do seminário argentino que se faz por oportuno resgatar tem a ver com a denominação das pessoas com deficiência. Este continua sendo um tema de discussão em diferentes países e cenários, já que, apesar de os Estados já terem ratificado a Convenção e, por esta razão, deveriam ter adotado a expressão “pessoas com deficiência”, ainda vemos que continuam sendo usadas as terminações: “pessoas especiais”, “pessoas excepcionais”, “pessoas portadoras de necessidades especiais” (como vemos no Brasil), “pessoas com capacidades diferentes”, entre outras.
Para colocar a questão sob uma perspectiva diferente (e até mesmo engraçada) e mostrar o contrasenso no uso de algumas expressões rebuscadas e reafirmadoras de preconceitos, uma ativa participante do seminário contou a seguinte anedota: “Como vocês sabem, na cidade de Buenos Aires se utiliza a expressão “pessoa com necessidade especial” para referir-se a pessoa com deficiência, enquanto que na província de Buenos Aires diz-se “pessoa com capacidades diferentes”. Pois bem, em uma reunião com funcionários de ambas localidades, em que se introduziu o tema sobre as expressões adequadas, propus-lhes o seguinte: “Eu sou uma pessoa com uma necessidade especial: gostaria de passar uma noite inteira com o ator espanhol Antonio Banderas, porque ele é uma pessoa com capacidades diferentes!”.
Conclusões e “Declaração de Compromisso da Argentina”
“O seminário da Argentina foi, para a RIADIS, uma rica e alentadora experiência de trabalho conjunto com uma organização membro (REDI). Foi muito intenso em termos de conteúdo, da informação compartilhada e por conta dos debates. Do mesmo modo, foi rico na produção de linhas de ação, tendo como anotação final ou ápice a elaboração e aprovação de um bom documento de “Declaração de Compromisso”, resumiu Regina Atalla.
Na Argentina, em vez de elaborar e aprovar a declaração final do seminário, dirigida às autoridades e aos meios de comunicação (como ocorrido em seminários anteriores), prefiriu-se trabalhar e adotar uma declaração de caráter interno, mais dirigida ao movimento de pessoas com deficiência e seus aliados.
Pela singularidade e valor desta declaração, “RIADIS em ação” transcreve-na integralmente, a saber:
Nós, pessoas com deficiência e representantes de entidades públicas e privadas, participantes do “Seminário RIADIS/REDI sobre a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência”, organizado pela Rede Latino-Americana de Organizações Não Governamentais de Pessoas com Deficiência e suas Famílias (RIADIS) e a Rede pelos Direitos das Pessoas com Deficiência (REDI), celebrado na Cidade Autônoma de Buenos Aires nos dias 23 e 24 de abril de 2009, emitimos a seguinte Declaração: 1)Considerando que as pessoas com deficiência pertencem a um setor da população que tem sido e é afetado por distintas formas de discriminação e exclusão, e consequentemente por múltiplas violações dos direitos humanos; 2)Exaltando que as Nações Unidas aprovaram a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CDPcD) e seu Protocolo Facultativo, com uma participação de protagonista das pessoas com deficiência e suas organizações, e que este instrumento jurídico deve converter-se em uma valiosa ferramenta para garantir o cumprimento dos direitos das pessoas com deficiência; 3)Convencidas e convencidos de que, para lograr avanços sustentados nos direitos reconhecidos na Convenção, é necessário que todos os entes do Estado e a sociedade civil, representada por pessoas com deficiência, suas organizações e os organismos de direitos humanos, participem ativamente na implementação e monitoramento do tratado, baseado em suas faculdades e responsabilidades; 4)Considerando que é o momento para avançar no plano jurídico no fortalecimento dos direitos das pessoas com deficiência, como no plano da realização efetiva desses direitos, através de uma reforma jurídica estruturante, uma reforma legal, de acordo com a Convenção, assim como planos, políticas públicas e programas de caráter transversal; Nada sobre as pessoas com deficiência, sem as pessoas com deficiência! Dada na Universidade de Palermo, Cidade Autônoma de Buenos Aires, Argentina; sexta-feira, 24 de abril de 2009.Declaração de compromisso da Argentina
COMPROMETEMO-NOS A:
I. Em matéria de participação social:
II. Em matéria de acesso à justiça e capacidade jurídica:
III. No campo da acessibilidade:
IV. Em matéria de emprego:

A fotografia exibe um ângulo lateral (de perfil) dos participantes do Seminário da Argentina. Ao fundo, se apresenta o “banner” da RIADIS, onde se lê “Programa Regional de Seminários RIADIS”, ao lado de um logotipo grande da rede latino-americana.