Agrotóxicos e saúde: doenças e deficiência prevenível

Ana Dones

Um sintoma revelador do crescente domínio da racionalidade do mercado é a tendência não só de tratar a forma da riqueza como capital, mas de conceitualizá-lo como tal em teoria.

Desde o ponto de vista de que a exploração social é inseparável da exploração natural, e claro, sendo estes fins para a desterritorialização, deslocamento, migrações internas e externas, exclusão social, são parte de um grave problema que enfrenta a humanidade: a contaminação por agrotóxicos.

O Comitê Inter-Institucional Equatoriano sobre as Fumegações (CIF) comprovou, dentro do Equador, o impacto das fumegações colombianas do Plano Colômbia, a dois, cinco e dez quilômetros da fronteira.

Infecções respiratórias, digestivas, da pele e oculares. Risco de câncer, de malformações congênitas e de abortos espontâneos, que aumentaram em 800 por ciento naquele país.

Na Argentina, os casos de malformações por contato com agrotóxicos superam dez vezes a média. A estatística normal de casos de malformação do tubo neural é de um em cada mil bebês nascidos vivos, porém em Missões a estatística é de doze casos de malformação por cada mil. 87% dos casos de malformação registram-se geralmente em pacientes que habitam zonas rurais e estão em permanente contato com agrotóxicos, são filhos de trabalhadores das plantações de fumo e erva-mate.

O componente de agrotóxicos mais nocivos para o organismo é a infelizmente célebre Dioxina, conhecida como Agente Laranja, substância usada no Vietnã e que continua sendo utilizada em Missões, nas plantações de fumo, apesar do seu conhecido alto grau de toxicidade. O agente laranja produz graves alterações no organismo, tais como vômitos, ataque de epilepsia, edemas pulmonares, arritmias cardíacas que derivam em morte e severas deficiências neurológicas, tais como o retardo mental grave e a mielomeningocele ou espinha bífida.

Em outras zonas, há pessoas com intoxicação aguda devido ao contacto com agrotóxicos – inseticidas, herbicidas e fungicidas. O processo de intoxicação começa por meio da pele e pulmões, sendo absorvido pelo sangue que, contaminado, distribui os tóxicos por todo o organismo.

Tanto em Missões como no Uruguai, nas plantações de pinheiros utiliza-se agrotóxicos denominados pentaclorados, substâncias solúveis em água, que se fixam na pele e são absorvidas pelo organismo.

Outro tema que incumbe aos países do MERCOSUL é o florescente negócio da soja, cujo principal agrotóxico é o infelizmente célebre Roundup de Monsanto (glifosato). Apenas no ano de 2007, o cultivo da soja consumiu 94% do glifosato usado na Argentina, uns 178 milhões de litros, e esta cifra aumenta a cada ano com o incremento da superfície semeada. As consequências do glifosato para a saúde são cada vez mais evidentes para o mundo, porém parece que para América do Sul esse não foi um problema. As mesmas doenças e deficiências, antes comentadas, são vividas em todas as zonas rurais onde se cultiva a soja. O médico Rodolfo Páramo, do Hospital de Malabrigo, Santa Fé, revelou que a proporção de nascimentos de bebês com malformações é muito grande, como assim também os distintos tipos de câncer. E advertiu contra o uso indiscriminado do glifosato, o "qual não se degrada em contato com a terra".

Diante da falta de iniciativa das autoridades locais de nossos países, a carência de informação e conhecimentos dos agentes sanitaristas e dos trabalhadores da saúde, bem como da ausência de uma base de dados de patologias causadas por contaminação por agrotóxicos, da falta de consciência ecológica da população em geral, e ainda da falta de destinação de recursos para a difusão de riscos aos que estão expostos,

Propomos:

  1. Promover o reconhecimento, avaliação e estudo dos fatores que repercutem na saúde da população rural.
  2. Desenvolver e por em prática estudos de investigação multidisciplinares e cooperativos, em associação com outros centros, e criar base de dados.
  3. Incorporar o tema da saúde associada à contaminação e a capacitação dos membros das equipes de saúde.
  4. Obter apoio institucional de autoridades locais e nacionais para atividades de investigação, educação, promoção e prevenção.
  5. Solicitar às autoridades das distintas Universidades do MERCOSUR a incorporação da Medicina Ambiental dentro da grade curricular de formação.
  6. Repartir os ensinos sobre salubridade ambiental, sobretudo nas zonas rurais, através de iniciativas em escolas e educação para adultos.

Ana Dones
REDI - Rede pelos Direitos da Pessoas com Deficiência
Email: rediderechos@yahoo.com.ar

Redi é uma Associação Civil que luta pelo protagonismo dos direitos das pessoas com deficiência, através da concientização, judicialização e visibilidade dos direitos das pessoas com deficiência.